POSFÁCIO

Ambrózio (*)

Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.

Jacques Lacan.

 


Não é possível mudar uma pessoa sem que ela queira. Mas é possível adoecer e arruinar a própria vida tentando fazer isso.

Sigmund Freud



 

Pra quem não sabe amar
Fica esperando alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Cazuza.[1]  

 

Inicio este posfácio com um poema do mesmo poeta, só que, de outros tempos em que avistara a luz, a ternura e quem sabe, o amor:

Às escuras teu nome tem cheiro

Balbucio, sinto cheiros e tu me guias

Vou ao teu encontro como cego

 e Sempre teu cheiro me guia

As noites têm mais plenitude

Devolveste a mim o desejo de ser

A vontade de ficar em janelas 

Olhar a chuva no batente

Ver o invisível

Pregar o olho no olho

E dizer

Apertado

Devolveste-me

A mim[2].

Para quem tem uma leitura sensível, não é lá muito difícil identificar que a temática deste primeiro poema - não encontrada no livro posfaciado - corresponde a um sentimento sobre o qual muito se falou – ao menos no estrato ocidental deste planeta - em textos, novelas, escritos, tratados filosóficos e até mesmo em orações no calar da noite quando os que oram se imaginam escutados apenas por quem acreditam zelar por suas almas. Trata-se do amor.

Quem atravessou a composição das frases e a sonoridade do conjunto das palavras a formar este mais recente livro do Poeta, Escritor e Professor Paulo Vasconcelos, verificou que durante sua escrita tal sentimento estava ausente, restando aos personagens da conversa interna do seu eu lírico apenas tédio, dor e crueldade:

Teus pés relatam e esvazio-me 

e reergo-me cheio

ao seguir tuas plantas decalcadas.

Vou, voo não há certo,

há esse afeto que me toca

e me conjuga a ti.

Somos

e não há verbo que nos conjugue,

não é amor,

não é paixão

é ser e tocar apenas,

não há poesia,

há este encontro,

esta crueza,

nada mais...[3].

 

Sendo assim, o conjunto da obra Corpo, Mar e Faca é árido, seco e sem vislumbre de uma linha de fuga que afaste o vazio vivenciado não como espaço a ser preenchido com a ação criativa da vida, muito pelo contrário, a temporalidade do presente em que o eu lírico do poeta teceu as linhas de seus poemas é percebida na chave do terror e do desespero tal como daqueles apenados por sabe-se lá quem e por qual motivo. Não me deixa mentir o primeiro da série de setenta e seis poemas a compor este livro denotando uma desvitalização do corpo erógeno do poeta:

Este corpo

é terra alumiada em sangue

como pedra diluída.

 

A saliva é esfrega de língua,

água deserta em órbitas escuras[4].

Sua interpretação leva a entender que o andar dos dias foi sentido ora como tédio, ora como punição de um Super-eu tornado sádico em sua relação com um Eu apequenado e destituído de suas qualidades volitivas e atitudinais[5].

Todo o ambiente no qual as frases são escritas dão a impressão de transcorrerem-se na atmosfera de um tribunal regido por um juiz cruel e obsceno, tal qual aquele em que Franz Kafka inseriu o personagem Josef K[6], todavia, em Corpo, Mar e Faca a paisagem parece ainda mais sombria porque os carrascos não aparecem para dar o golpe final e permitirem K dizer a frase que põe fim ao romance: como um cão[7], isso na volição de permitir que a vergonha a ele sobrevivesse, leiamos um poema que demonstra essa percepção de quem se debruçou para escrever esse posfácio:

O tempo é inútil,

é apenas o que não se vê e rola,

é careta disfarçada e repetida

acresce apenas mais ou menos sal,

ou menos que foi para outro lado

e o sal que volta,

como voltará o salobre

no golpe da faca polida do que dizemos[8].

 

O eu lírico utilizado por Vasconcelos, na confecção desta obra, ansiaria por este alívio do fim a ele negado por alguma divindade cruel a qual ele nem mais acredita:

Tangendo tua fé,

inútil, em outro, do além,

negas em e a ti o áspero ser

que esfregas sobre o outro.

 

O outro és tu

e assim te derramas como um cão,

um cacto, uma verruga como uma bexiga de tua pele e lamentas sobre o altíssimo

que transcende teu corpo

e este deus permanece mudo e inútil[9].

A maioria das pessoas quando se depara com esta muralha da linguagem erigida pelo sujeito para negar sua realidade objetiva e apegar-se no sentimento narcísico de ainda gozar com o escárnio a tudo e a todos ao seu redor; geralmente, tenta fazer orações, invocar lembranças, afiançar promessas ou exibir cobranças que só aumentam a força daquilo a atormentar o Eu devastado pela presença de tal Super-eu despótico.

Agora, aqueles a reconhecer a tormenta sentida pelo outro e que se mostra intransponível a qualquer tentativa de oferta de ajuda e socorro; em sua paciência, velam e esperam outros ventos, outros mares e outras cores passíveis de, uma outra vez, despertarem um dos impossíveis nomeados por Lacan ao referir-se a outros três já ditos pelo seu mestre Sigmund Freud, no caso, educar, curar, governar[10] e fazer desejar[11]. Neste sentido, o poema abaixo dá esperanças de um renascimento do desejo enquanto força motriz do vir a ser posterior à devastação subjetiva experenciada e narrada nos estalidos de faca que compõem a sonoridade cortante dos poemas:

Minha nega dê cá peito

como minha ama deu-me o seu

com ramo de alecrim cruzado com arruda,

e eu sugava o céu de tuas mamas acaneladas

não me davas leite,

davas-me o doce do teu leite

e eu me batizava como capim santo[12].

Sendo assim, em vez de seguir o que demanda o Super-eu e atormentar, castigar, enganar para, depois, pedir desculpas falsas, ou, simplesmente, impor uma rotina de pressão para extrair medo e repulsa de quem outrora recebia-se sorrisos e tranquilidade, é mais sensato apostar no acima referido renascimento do desejo enquanto afeto ativo na economia libidinal do sujeito.

Neste sentido, é interessante fazer uma pausa para falar do contemporâneo dentro do qual foi escrita a mais recente obra de Vasconcelos.

Sabe-se, certamente, não ser mais costumeiro pensar no outro e no Outro na atualidade; muito pelo contrário, o “si mesmo” coisificado transformou-se em uma mercadoria vendável e replicável por alguns tostões fazendo com que o Outro perdesse qualquer caraterística de nobreza e veneração: com facilidade, no contemporâneo, goza-se com toda a ânsia possível esquecendo-se que existem corpos, famílias, habitações, bairros, cidades, países e, até mesmo, um planeta em comum.

Deste modo, caso mantidos os níveis de demanda e consumo para aplacar a angústia de existir de uma pequena parcela das populações do planeta, precisar-se-ia, no mínimo, de oito outros para refazer os estragos que tais níveis acarretam à única esfera habitável há alguns milhões de anos luz do que funciona enquanto casa para não somente a espécie humana; por, também a coabitarem outros milhões de espécies conhecíveis e ainda em estatuto de serem conhecidas pelo estágio atual da ciência desenvolvida e trasmitida entre os seres humanos[13].

Esta pequena advertência funciona como causa eficiente para pensar-se nos pequenos caprichos a alimentar o roteiro de grandes e pequenas tragédias e tiranias que poderiam ser evitadas caso uma pequena questão em forma de corte (Aleph) fosse apresentada antes do início de seus enredos: eu gostaria que fizessem comigo aquilo que exercito sobre o outro?

Se todos os habitantes do planeta se fizessem cotidianamente esta pergunta antes de abordarem qualquer um para uma conversa que fosse, sabidamente não precisar-se-ia de monitoramentos, polícias, exércitos, governos e tudo o mais que cai na conta seja da tirania explícita, seja da violência para com qualquer um que dependa unicamente daquelas instâncias para ainda sobreviver.

Voltando à obra de Vasconcelos, é possível também vislumbrar, na moldura de sua estrutura, que a relação com o inominável da morte (pgs 8-18), uma servidão amorosa ressentida (pgs 24-53), junto com um sentimento de tédio acompanhado do desamparo (pgs 54-71) e visagens depressivas (pgs 72-76) estiveram presentes em grande parte dos poemas que, em seus fragmentos de som, compuseram este pequeno livro, todavia, poder-se-ia lembrar ao seu eu lírico do frescor das manhãs de festa que já atravessaram sua vida antes do momento em que sentiu e debruçou-se para compor os poemas que o leitor teve sob seus olhos, além disso, lembra-lo também de que, talvez, a salvação não esteja nos “além dos aléns[14]”: justo porque o tempo, a eternidade e a própria substância, não precisam de nós; existiram antes e continuarão a sua marcha depois que nossos corpos a elas retornarem, todavia, quem precisa de nós é quem vivencia conosco as alegrias, angústias, tristezas, tédios e pequenas conquistas de cada dia singular.

Se não formos capazes de reconhecer estes outros que zelam por nossa vida a cada instante e não entram no jogo paranoico da competição a qualquer custo, então, realmente, pode-se dizer que nossa vida passou em vão.

Todavia reconhecendo-os, torna-se muito provável uma salvação e a abertura de uma possibilidade de forjar-se uma vida outra dentro da temporalidade fugaz de uma vida que não se reduza ao estatuto da “vida nua[15]”.

 

São Paulo, 21 de agosto de 2024.

(*) Ambrózio é Psicanalista membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto SEDES Spientiae, Pós-doutor em História Cultural pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Autor do livro Empresariamento da vida: a função do discurso gerencialista nos processos de subjetivação inerentes à governamentalidade neoliberal (2018).

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[1] CAZUZA. Blues da piedade. Disponível em: < https://www.letras.mus.br/cazuza/44997/>. Acesso em: 16 ago de 2024.

[2] VASCONCELOS, Paulo. In mimeo. São Paulo, 26-06-2008.

[3] VASCONCELOS, Paulo. Corpo, mar e faca. São Paulo, 2024, p. 33.

[4] VASCONCELOS, 2024, p. 19.

[5] FREUD, Sigmund [1937 (2018)]. Análise terminável e interminável. In: Obras completas de Sigmund Freud. Tradução de Paulo César de Sousa. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. v. 19, p. 274-326, p. 311.

[6] KAFKA, Franz. O processo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[7] Segue o parágrafo inteiro para meu texto ganhar sentido: [...] na garganta de K. colocavam-se as mãos de um dos senhores, enquanto o outro cravava a faca profundamente no seu coração e a virava duas vezes. Com olhos que se apagavam, K. ainda viu os senhores perto do seu rosto, apoiados um no outro, as faces coladas, observando o momento da decisão.

- Como um cão – disse K.

Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele.

Kafka, 1997, p. 278.

[8] VASCONCELOS, 2024, p. 57.

[9] VASCONCELOS, 2024, p. 28.

[10] Os três primeiros impossíveis foram enunciados por Sigmund Freud ([1937] 2018) no texto Análise terminável e interminável. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 319. A qualificação impossíveis se dá no sentido de que são ofícios sobre os quais a humanidade precisa voltar eternamente sua atenção para adequá-los às exigências de cada tempo histórico, dada a sensação nos profissionais que as realizam de sempre saberem de antemão que seus esforços foram insatisfatórios.

[11] Aos três impossíveis enunciados por Freud, Lacan acrescentou mais um, no caso, o “fazer desejar” no seminário 20, por ele nomeado: Mais, ainda. Tradução de M.D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

[12] VASCONCELOS, 2024, p. 82.

[13] FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. São Paulo: Ubu Editora, 2024.

[14] Conforme poema da página 66.

[15] AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.